Texto: (De)forma

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Fonte: Weheartit

Como pode face tão simétrica não sustentar a leveza de um sorriso? O pranto expia, corta, expurga, mas não volatiza os sentimentos líquidos. E se, outrora, já fui tanto, hoje nada posso ser. Porque é o agir que faz sujeito, não viver sempre à mercê. Na ciranda dos meus passos, giro pro mesmo lugar. Meus desejos são escassos, não sei mais como sonhar.

Ora triste, ora alegre, insustentável condição.

Desta alma que lhe escreve, aqui vai um novo não.

Não às sedes e caprichos com que um dia me rendeu. Não ao mudo, ao submisso, a tudo que não era eu. Não às formas, não às rimas, porque não sou mutável assim. Não às capas de revista que me tornam o pior de mim.

Uma olhada no espelho e, de joelhos, acabei. O bonito ficou feio, distinguir eu já não sei. Tento colocar pra fora o peso da minha incerteza. Torno a machucar a alma em que se esconde a real beleza. Ora magras, ora gordas, inalcançável perfeição. Mostruário de pessoas; só parecem, nunca são.

Destes cacos que lhe escrevem: não dá mais pra ser assim

É padrão, mas não procede: você é mais que um manequim.

Marcele Cambeses, Autora da Saga Destino Trocado, escritora amadora com convicção e jurista a contragosto. Tenho um abismo por inteligência e visões de mundo inovadoras; sou apaixonada por boas metáforas. Por ser também autocrítica por natureza, vivo em eterno quebra pau com os meus botões: “por que eu fiz esta bio horrorosa?!”

Texto: Caso Singular

casosingular

Senti falta dos murmúrios. Daquelas frases abafadas que costumava me dizer com os olhos quando, nos lábios, havia falta de palavras. Das manhãs nubladas, de presságio cinza, em que me garantia que o sol brilhava, mesmo quando a vista só enxergava em preto e branco.

Senti falta das cirandas, das meias voltas, volta e meia. Dos regressos não calculados com que sempre contrariávamos, repetidamente, os pontos finais das nossas orações – no quarto, o fim das reticências.

Senti falta dos parênteses, das ressalvas declaradas. Dos “mas”, por essência adversativos, sempre aditivos àquela soma de nós dois. De me aconchegar na cama, com o cabelo embaraçado pelos “nós” emaranhados na madrugada anterior: um dois em um por vontade.

Senti falta dos provérbios, do senso comum que unificava opostos. Do advérbio de tempo, inconstante no sempre, mas muito afirmativo quanto à sua intensidade: até o nunca virou “nunca mais”.

Senti falta dos sabores, das degustações em conjunto. Do prato cheio que era a sua irreverência, com as promessas colocadas “sobre-mesa”. Do dulçor do futuro, em agridoce com o passado, reafirmando a desinência que nos fazia ser plural.

Na partilha, sobrou “eu” pra cada um. Cuide do seu.

Senti falta das bandeiras, das origens escrachadas. Do pertencimento ostentado no peito, ainda que nos dedos não houvesse anéis. De tocar o outro, mas sem ser pros outros, porque um só coração é pouco espaço na gaveta.

Mas eu precisei de espaço…

Senti falta do status, “quo” no relacionamento. De viver vivendo, só porque tá vivo, sem sorrir para foto para provar que é feliz. De sair por vontade, aproveitar a liberdade, sem caçar estranhos que preenchessem as lacunas.

A eternidade, de caneta, já me rasurou demais.

Quis uma página só minha.

Senti falta do sujeito, próprio em sua companhia. De me ver tão engraçada, tão bonita, porque o seu afeto me fazia acreditar. De me sentir perfeita, mesmo que “pré-feita” à luz das suas vontades e idealizações; não dei conta. Troquei o composto pelo simples, fiz de mim o núcleo.

Deixei de te sentir.

Hoje, dizem que me sinto porque não consinto com o que já senti um dia. Eu senti, assumo. Só que, agora, eu não sinto mais.

Sinto muito. Gostei de me sentir.

 

Marcele Cambeses, Autora da Saga Destino Trocado, escritora amadora com convicção e jurista a contragosto. Tenho um abismo por inteligência e visões de mundo inovadoras; sou apaixonada por boas metáforas. Por ser também autocrítica por natureza, vivo em eterno quebra pau com os meus botões: “por que eu fiz esta bio horrorosa?!”