Relacionamento

Texto: Caso Singular

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Senti falta dos murmúrios. Daquelas frases abafadas que costumava me dizer com os olhos quando, nos lábios, havia falta de palavras. Das manhãs nubladas, de presságio cinza, em que me garantia que o sol brilhava, mesmo quando a vista só enxergava em preto e branco.

Senti falta das cirandas, das meias voltas, volta e meia. Dos regressos não calculados com que sempre contrariávamos, repetidamente, os pontos finais das nossas orações – no quarto, o fim das reticências.

Senti falta dos parênteses, das ressalvas declaradas. Dos “mas”, por essência adversativos, sempre aditivos àquela soma de nós dois. De me aconchegar na cama, com o cabelo embaraçado pelos “nós” emaranhados na madrugada anterior: um dois em um por vontade.

Senti falta dos provérbios, do senso comum que unificava opostos. Do advérbio de tempo, inconstante no sempre, mas muito afirmativo quanto à sua intensidade: até o nunca virou “nunca mais”.

Senti falta dos sabores, das degustações em conjunto. Do prato cheio que era a sua irreverência, com as promessas colocadas “sobre-mesa”. Do dulçor do futuro, em agridoce com o passado, reafirmando a desinência que nos fazia ser plural.

Na partilha, sobrou “eu” pra cada um. Cuide do seu.

Senti falta das bandeiras, das origens escrachadas. Do pertencimento ostentado no peito, ainda que nos dedos não houvesse anéis. De tocar o outro, mas sem ser pros outros, porque um só coração é pouco espaço na gaveta.

Mas eu precisei de espaço…

Senti falta do status, “quo” no relacionamento. De viver vivendo, só porque tá vivo, sem sorrir para foto para provar que é feliz. De sair por vontade, aproveitar a liberdade, sem caçar estranhos que preenchessem as lacunas.

A eternidade, de caneta, já me rasurou demais.

Quis uma página só minha.

Senti falta do sujeito, próprio em sua companhia. De me ver tão engraçada, tão bonita, porque o seu afeto me fazia acreditar. De me sentir perfeita, mesmo que “pré-feita” à luz das suas vontades e idealizações; não dei conta. Troquei o composto pelo simples, fiz de mim o núcleo.

Deixei de te sentir.

Hoje, dizem que me sinto porque não consinto com o que já senti um dia. Eu senti, assumo. Só que, agora, eu não sinto mais.

Sinto muito. Gostei de me sentir.

 

Marcele Cambeses, Autora da Saga Destino Trocado, escritora amadora com convicção e jurista a contragosto. Tenho um abismo por inteligência e visões de mundo inovadoras; sou apaixonada por boas metáforas. Por ser também autocrítica por natureza, vivo em eterno quebra pau com os meus botões: “por que eu fiz esta bio horrorosa?!”

Trilha Sonora Original #2 – Rima Rica

Criada em 2010, Rima Rica é uma composição inspirada em um dos casais da série de livros Destino Trocado: a Babi e o Alex. Muito carnais, explosivos e sempre metidos em um duelo entre a atração e a decepção, emprestaram especialmente esta última para a essência da música. Acontece que como o recalque é democrático e, ao longo da vida, não poupa ninguém, a nossa “morena de fases” experimentou os seus próprios momentos ressentidos em que humilhar o Alex se fazia essencial para que ela se sentisse melhor. É retratando essa etapa deles dois que Rima Rica vai surgir na trama.

Antes que me perguntem, como foi frequente com a canção anterior (Who I am), sim, a composição é minha e, infelizmente, a voz também é. Espero que gostem desse vídeo que eu fiz com cenas do filme Todas Contra John e que o compartilhem com os seus amigos que curtem ler. Afinal, esse conjunto de micos é postado exatamente para fins de divulgação da obra; me ajudem a vender livros, galera, por favor! Enfim, para quem quiser baixar, clique aqui para acessar o áudio em mp3. Segue abaixo a letra oficial:
 

Rima Rica

 

Fico tentando não fantasiar

É muito pra você se interessar

E eu não faço o estilo banal

Um salto alto, um top degradê

Nas entrelinhas te surpreender

Ser diferente até que é legal

 

(E são)

Tantas palavras para tentar expressar

E agora vem dizer que eu não tenho conteúdo?

Pois, então, vá se ferrar!

 

Refrão:

Se quer saber como estou

Pois, eu digo, agora eu vou

Dançar até o dia ter fim

E você pense o que quiser

Eu não sou sua mulher

(Então), some logo da minha frente

 

Quem marca bobeira

Leva pé de primeira

E isso foi uma rima rica

 

Interessada e sem correr atrás

Dar mole com cara de tanto faz

Autenticidade recebeu um tchau

 

Em pouco tempo ouvi você dizer

“meu bem, eu gosto muito de você

Próximo passo não é nada mau”

Nas madrugadas pedindo pra eu confiar

E agora vem dizer que está arrependido

por ter sido blábláblá

 

Refrão:

Se quer saber como estou

Pois, eu digo, agora eu vou (eu vou)

Dançar até o dia ter fim

E você pense o que quiser

Eu não sou sua mulher

(Então), some logo da minha frente

 

Quem marca bobeira

Leva pé de primeira

E isso foi uma rima rica

 ‘

E quando soube como eu sou

O malandrinho foi se arrepender

Fez sinal, o bonde já passou

E se gamou no passatempo

Compre um lote da Nestlé!

 

Refrão:

Se quer saber como estou

Pois, eu digo, agora eu vou (eu vou)

Dançar até o dia ter fim

E você pense o que quiser

Tipo que usa mulher

Curtição, palito os dentes

 

Se achou o tal

Merece um chute… na bunda

Você vale rima nenhuma (2x)

 

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Marcele Cambeses, Autora da Saga Destino Trocado, escritora amadora com convicção e jurista a contragosto. Tenho um abismo por inteligência e visões de mundo inovadoras; sou apaixonada por boas metáforas. Por ser também autocrítica por natureza, vivo em eterno quebra pau com os meus botões: “por que eu fiz esta bio horrorosa?!”